Professor do Campus Altamira lança livro “Guerras nos Mares do Sul: O papel da Oceanografia na Destruição de Territórios Tradicionais de Pesca”

“Denunciar o papel histórico da vertente colonialista cultural das ciências da pesca, alocada na oceanografia biológica, na destruição de territórios tradicionais e; na geração de misérias culturais e materiais na zona costeira”. Com esse intuito, nesta quinta-feira, 18, o professor Gustavo Moura, do Campus Altamira, lança o livro “Guerras nos Mares do Sul: O papel da Oceanografia na Destruição de Territórios Tradicionais de Pesca”. O evento inicia às 19h, na livraria Fox, em Belém.

Atualmente professor adjunto do curso de Etnodesenvolvimento e vice-diretor da Faculdade de Etnodiversidade do Campus de Altamira, Gustavo Moura coordena o projeto de pesquisa “Tempo-espaço na Amazônia: multicalendários e multiterritorialidade em comunidades tradicionais de pesca”. Além de participar do projeto de extensão “Um dia de arqueologia na escola: discutindo os patrimônios, arqueologia e meio ambiente”. Atua também junto aos povos e comunidades tradicionais do curso de Etnodesenvolvimento, na contrainformação a petrolíferas que pretendem se instalar na foz do rio Amazonas, o que, em breve, deve dar origem a outro projeto de pesquisa/extensão.

Objetivo – No livro, o professor denuncia as campanhas de terror contra povos e comunidades tradicionais de pesca e a ação diferencial empreendida por órgãos governamentais, subsidiados por conhecimento científico, favorecendo as indústrias de pesca em detrimento da pesca artesanal. Essa ação diferencial é a manifestação, segundo ele, de uma modalidade de fascismo social, o fascismo de apartheid social. “Além disso, a obra também discute como processos chamados de ‘participativos’ de gestão na formulação de regulamentações e legislações de períodos de defeso, associados a políticas nacionais e internacionais de desenvolvimento do setor pesqueiro, podem ser utilizados como um aprofundamento dos instrumentos de dominação cultural dos povos e comunidades tradicionais por técnicos e pesquisadores.”

“Estas e outras denúncias são possíveis porque o livro oferece um aporte teórico-metodológico de contrainformação a legislações restritivas na pesca e até mesmo a grandes projetos de desenvolvimento na pesca impostos por políticas governamentais ou intergovernamentais em prejuízo a povos e comunidades tradicionais de pesca”, constata Gustavo.

Importância – Segundo o professor, este livro é a primeira obra que faz distinção entre o campo da Oceanografia Socioambiental e as Clássicas (Oceanografia Geológica, Química, Física e Biológica). Ele conta que a Socioambiental surge em oposição às Clássicas.

“A primeira, em geral, tem viés marxista e pós-colonialista, ancora-se no Ecologismo Social e articula-se com os movimentos sociais e suas demandas. Já a segunda, hegemonicamente tem sido afeita aos ideais do liberalismo econômico e do preservacionismo, tem subsidiado a expansão do modo de produção capitalista nos mares, viabiliza a privatização dos recursos pesqueiros e fomenta o colonialismo cultural nos mares e zona costeira desde a sua fundação”, explica. O assunto deve ser aprofundado em outro livro, “Avanços em Oceanografia Humana: o socioambientalismo nas ciências do mar”, previsto para junho ou julho deste ano pela editoria Paco.

Interesse – O professor relata que desde a graduação ouviu alguns professores do curso de oceanografia menosprezarem pescadores artesanais, indígenas e populações tradicionais. “Todas as falácias ligadas a povos e comunidades tradicionais de pesca acabou gerando curiosidade por eles que até então pouco conhecia. Não era uma curiosidade apenas pelo exótico, mas também pelos ‘iguais’ que passavam por todo o tipo de privações materiais... era consciência de classe mesmo. Além disso, construí ainda na graduação relações muito próximas com professores e alunos das Ciências Humanas e Sociais e, nesta convivência, partilhamos leituras e discussões e fui tomando contato com pesquisas mais sensíveis e menos falaciosas com relação a povos e comunidades tradicionais”.

Processo de estudo e produção – Gustavo Moura conta que o livro não é resultado apenas do tempo em que trabalhou em seu doutorado, mas de onze anos de pesquisa. “Desde a graduação, eu pude consultar mais de cem pesquisas em oceanografia relacionadas ao tema na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e na cidade do Rio Grande (RS), onde fiz a graduação e os meus trabalhos de campo. Desde o mestrado fiz diversos trabalhos de campo com povos e comunidades tradicionais do sul, sudeste e nordeste do Brasil, sendo que em dois destes trabalhos de campo eu tive a oportunidade de conviver mais de um ano e meio com eles. Foi um processo de aprendizado formidável”, relata Gustavo.

Estas experiências o ajudaram a entender a gravidade dos conflitos observados durante a vivência com as comunidades tradicionais de pesca gaúchas. Foram nove meses de escrita da tese de doutorado. Após quase quatro anos e meio, ele defendeu a tese que foi aprovada, indicada para publicação e para quatro prêmios, sendo ganhadora de um deles. “Uma das editoras que aceitou publicar a tese foi a Annablume, que irá lançar o livro. Ela propôs publicar a tese em dois livros. Um deles é o que será lançado dia 18 e tem enfoque na produção da dimensão temporal da produção dos territórios em disputa no estuário da Lagos dos Patos, Rio Grande do Sul”

Programação – Além de uma sessão de autógrafos, também haverá uma roda de discussão sobre o livro, com participação do professor Dr. Flávio Barros do Núcleo de Ciências Agrárias e Desenvolvimento Rural (NCADR/UFPA). O lançamento, nesta quinta-feira, 18, terá início às 19h na matriz da livraria Fox de Belém.


Texto: Andre Costa Gomes – Assessoria de Comunicação da UFPA

Imagem: Divulgação